Chamada para a edição de maio de 2026 da Revista Mídia e Cotidiano | Dossiê "Consumo, afetos e subjetividades"

2025-10-06

A Revista Mídia e Cotidiano está com uma nova chamada aberta até 15 de janeiro de 2026 para a segunda edição de 2026 (com previsão de publicação em maio de 2026) O tema do dossiê é: "Consumo, afetos e subjetividades". A editoria do dossiê será feito por Patrícia Burrowes (UFRJ), Mariângela Toaldo (UFRGS) e Pedro Henrique Conceição dos Santos (Ibict). Aguardamos suas contribuições, lembrando que a Seção Livre segue aberta.

 

Dossiê: "Consumo, afetos e subjetividades"

Na sociedade capitalística, o marketing foi o primeiro a perceber a potência dos afetos (não no sentido de emoções, mas de afectos e perceptos – de intensidades indeterminadas, pré e trans-individuais, como trabalhado em Deleuze e Guattari, 1996), tendo multiplicado e atualizado os modos de sua captura, ao investir na produção de subjetividades para o consumo. Talvez, por isso, Deleuze (1992) considerasse essa a nova forma de controle, e alertasse para o perigo das "alegrias do marketing". Na mesma época, Guattari (1992) propunha que uma "potência estética do sentir" tornava-se crucial nos hodiernos agenciamentos coletivos de enunciação. 

Os conteúdos persuasivos estruturam-se, explorando as paixões humanas a partir de imaginários construídos, que prometem o suprimento de carências em busca de realizações. As informações, imagens e ideias que recebemos constantemente são artefatos afetivos, que acionam a força de desejos a fim de nos mover em direções sugeridas. A máquina da persuasão intenciona mobilizar necessidades e desejos a partir da indústria do consumo de bens e serviços, marcas e conteúdos, permeados por modelos de personalidades, comportamentos, valores, crenças, estilos de vida entre outros (Bauman, 2008). 

Diante da realidade que vivemos cotidianamente, identificar o consumismo como um lugar que assume excessiva importância na vida é uma tarefa árdua. Por meio de suas seduções, o mundo capitalístico atrai com promessas de sonhos facilmente realizáveis pela aquisição. Como apontado por Fraser (2009), sua astúcia é criar aderências a diferentes formas de vida e até mesmo a seus contraditórios.

Num ato de reflexão, perguntamo-nos se, e como, a promoção do consumo em todos esses níveis permite verdadeiramente o alcance da realização das carências, necessidades e desejos das pessoas. Como essas promessas de realização procuram afetar nossas experiências e reações aos estímulos externos? Que tipos de montagens e interações têm emanado dessa intensidade (afecto) para alimentar certos agenciamentos e estabelecer conexões emocionais com as pessoas, entre elas e com o mundo (Massumi, 1995)? Quais subjetividades têm sido estimuladas: reproduções de condicionamentos socioculturais e midiáticos; tendências para a transformação; acionamentos e desenvolvimentos de formas críticas de pensar sobre o que se recebe; investimentos nas capacidades de escolha e invenção; buscas por viver a autonomia, fortificando a potência coletiva?

Recentemente, parecem despontar agenciamentos coletivos capazes de mobilizar afectos e perceptos em direções divergentes à do consumismo, que poderiam dar consistência a universos de valor e territórios existenciais nos quais outros modos de vida vigorariam.

Este dossiê se interessa em lançar uma perspectiva crítica para discutir as armadilhas em que coletivamente nos afundamos, englobando as três dimensões da Ecosofia – mental, social e ambiental (Guattari, 1993), bem como em apontar onde se vislumbram as brechas e as linhas de fuga que constituiriam outros mundos. 

A proposta deste dossiê é abrir espaços para estudos, pesquisas, experiências que abordem a questão dos afetos na sua relação com o consumo e com a subjetividade, nos modos propostos e utilizados pelas indústrias midiática e do consumo, e/ou em produções, modos de vida, expressões comunicacionais etc. que tratem da tríade afetos-consumo-subjetividades, visando novas subjetivações. A ideia é que os artigos tragam registros, questionamentos, implicações, propostas da abordagem do afeto em uma ou em ambas perspectivas.

Entre os principais pontos esperados, citamos:

  • Teorização sobre afectos e perceptos, mobilizando emoções e sentimentos 
  • Modos de afecções agenciados pela indústria midiática (informação e desinformação, publicidade expandida, entretenimento etc.) para a promoção do consumo
  • Micropolítica da afecção: afetos, produção de subjetividades, potência e poderes 
  • A dimensão dos afectos e perceptos, suas interconexões com o consumo em espaços físicos e/ou virtuais
  • Jogos, afectos/perceptos e ludicidade na produção de mundos
  • Ativação de afectos/perceptos para subjetivações dissidentes
  • Modos de afecções e literacia do consumo

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Ed., 2008.

DELEUZE, Gilles. Conversações, 1972-1990. São Paulo: Editora 34, 1992.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia, Volume 3. São Paulo, SP: Editora 34, 1996.

FRASER, Nancy. O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história. Mediações, Londrina, v. 14, n. 2, p. 11-33, jul./dez. 2009.

GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34, 1992.

GUATTARI, Félix. As três ecologias. Campinas, SP: Papirus, 1993.

MASSUMI, Brian. The Autonomy of Affect. Cultural Critique, Minneapolis, n. 31, p. 83-109, 1995.