ACESSIBILIDADE DIGITAL E INCLUSÃO: O QUE PODEMOS APRENDER
COM A ÉTICA HACKER?
DIGITAL ACCESSIBILITY AND INCLUSION: WHAT CAN WE LEARN FROM
HACKER ETHICS?
Maria Paula Gonzaga Magalhães1
Dagmar de Mello e Silva2
Helen Ferreira3
Resumo
O presente trabalho visa trazer algumas reflexões iniciais de uma pesquisa de
Mestrado em andamento, articulada a uma pesquisa de pós-doutorado sobre
Multiletramentos e Cultura visual em espaços escolares, desenvolvidas no Programa de
Pós-graduação em Educação, da Universidade Federal Fluminense e na Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Neste estudo, procuramos problematizar a acessibilidade e a
inclusão em espaços/tempos das redes sociais digitais. Deste modo, abordamos os
princípios filosóficos da ética hacker para pensarmos uma educação mais
colaborativa, coletiva e compartilhada, apoiada em fundamentos que defendem o livre
acesso à internet e ao conjunto de tecnologias que constituem a Cultura Digital. Essa
pesquisa tem como percurso metodológico a pesquisa-intervenção pelo método
cartográfico, a fim de acompanha os processos de reterritorialização de estudantes do
ensino fundamental, em espaços virtuais. Assim, o foco neste artigo, é a abordagem
teórica, de modo a consolidar os fundamentos conceituais necessários para a
compreensão dos temas da pesquisa.
Palavras-chaves: Inclusão. Acessibilidade. Ética hacker. Educação.
Abstract
This paper aims to present some initial reflections on an ongoing Master's research
project, articulated with a postdoctoral study on Multiliteracies and Visual Culture in
school settings, developed within the Graduate Program in Education at the Federal
University of Rio de Janeiro and the Fluminense Federal University. In this study, we
seek to problematize accessibility and inclusion in the spaces and times of digital social
networks. To this end, we address the philosophical principles of "hacker ethics" to
envision a more collaborative, collective, and shared education, grounded in principles
advocating for free access to the internet and the array of technologies that constitute
Digital Culture. This research adopts the intervention-research approach using the
cartographic method to track the processes of reterritorialization of elementary school
students in virtual spaces. Accordingly, this article focuses on the theoretical
3 Professora da Faculdade de Educação - UFF. Contato: helenpereiraferreira@gmail.com. Telefone: 21
971663086. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9759-0681
2Professora da Faculdade de Educação - UFF. E-mail: dag.mello.silva@gmail.com. Telefone: 21
996274932. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5863-3607
1Mestranda em educação do Programa de pós-graduação da UFF. E-mail: mpgmagalhaes@id.uff.br.
Telefone: 21 974074305. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-6291-4506
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Magalhães, Silva e Ferreira
framework to consolidate the conceptual foundations necessary for understanding the
themes explored in the research.
Keys words: Inclusion. Accessibility. Hacker ethic. Education.
Introdução
Vivemos num contexto histórico em que o desenvolvimento técnico e
tecnológico acontece em tempos átimos, onde o acesso à informação e as formas de
se produzir conhecimento são múltiplas, provocando mudanças desafiadoras em
relação ao papel da escola e seus modos de ensinar. A pandemia de Covid 19 mostrou
de forma ampliada, aspectos das tecnologias digitais, até então, não tão bem
assimilados por parte da sociedade, mas que, inevitavelmente, vem transformando os
velhos modos de habitar o mundo.
O avanço tecnológico que vivenciamos nas últimas décadas, foram tão
incisivos à vida humana, que passaram a constituir uma forma de Cultura nos meios
digitais. Cultura esta que alterou radicalmente nossas relações comunicacionais e,
consequentemente, de sociabilidade e nossos modos de vida. Em nosso sensorium fica
a impressão de uma aceleração temporal quase intangível à captura perceptiva
humana, mesmo que os ponteiros dos relógios se mantenham no mesmo ritmo. Essa
sensação de contração do espaço e compressão do tempo, são resultados de uma
espécie de infodemia difícil de ser acompanhada e que nos conduzem a desafios como
lidar com uma economia da atenção” que assume uma realidade cada vez mais
concreta em nosso tempo. Trata-se de uma economia que segundo Citton (2018, p.15)
é baseada na escassez das capacidades de recepção dos bens culturais.
Este excesso de informação invade o nosso cotidiano com mensagens
difundidas por fluxos intensos e instantâneos que atingem um número incalculável de
pessoas em tempo real. A democratização da informação tem minimizado as
desigualdades e exclusões? Discutir a garantia de acesso aos artefatos digitais e a
internet de boa qualidade não são suficientes, é preciso que seus usos, suas práticas
nestes contextos, produzam problematizações que nos conduzam a criação de práticas
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inventivas, para que todas as pessoas possam usufruir da difusão de conhecimentos
nesses meios, em condições de equidade.
Desse modo, esta pesquisa toma como base o pensamento de alguns autores
como: Pierry Lèvy, Nelson Pretto e Pekka Himanen, dentre outros, entendendo que o
conhecimento tem o poder de forçar o pensamento para nos restituir o direito a
olhar, “um direito ao real”, “reivindicação que se apóia no pensamento crítico sobre
visão e visualidade” (Mirzoeff, 2016). Portanto, consideramos que não basta apenas ter
o direto a olhar” se não houver reparação daquilo que vem sendo destituído daqueles
e daquelas que não capturam as imagens com seus próprios olhos ou, cujas escutas se
dão por relações imagéticas, além daqueles e daquelas que precisam ter tempo para
pensar.
Nesse artigo nos propomos a discutir formas de, pelo menos, amenizar
exclusões em contextos virtuais a partir do princípio de que a difusão de conhecimento
seja livre e acessível a todos. Motivo pelo qual este estudo vem se desenvolvendo no
sentido de discutir a Ética Hacker com base nos estudos de Himanen (2001) e Pretto
(2017), conceito que se refere aos valores morais e filosóficos na comunidade hacker
que defende o livre acesso a informações e melhoria da qualidade de vida, princípios
estes, que entendemos serem valiosos para os processos pedagógicos, possibilitando,
por meio de uso crítico e inventivo das tecnologias digitais, uma educação para além
da sala de aula física.
Compreendemos a construção de uma escola inclusiva como o meio mais justo
de combater as exclusões e o preconceito, tendo como base os direitos conquistados
através dos aparatos legais da Declaração Universal dos Direitos Humanos (Unesco,
1948), Declaração de Salamanca, Leis de diretrizes e Bases para educação brasileira
(LDB, N 9394/1996) e a Lei Brasileira de Inclusão (LEI Nº 13.146/2015.).
Para concebermos a escola inclusiva e democrática precisamos pensar em
princípios de acessibilidade, equidade e no livre acesso ao conhecimento. Nesse
sentido, estamos ratificando que os modos de vida contemporâneo com os aparatos
tecnológicos que constituem a Cultura Digital, prescindem dos direitos de pessoas com
impedimentos sensoriais e cognitivos, participarem com autonomia de seus espaços
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/tempos. Motivo pelo qual este estudo vem problematizado a respeito do que e como
as crianças estão consumindo e produzindo conteúdos para as redes sociais, se de
forma inclusiva ou não, tomando como ponto de partida a questão: Poderia a Ética
Hacker produzir espaços/tempos sensíveis à inclusão?
Entendemos que essa questão exige uma compreensão plural da experiência e
dos fenômenos sociais complexos que envolvem a educação e a tecnologia,
considerando as subjetividades humanas. Dessa forma, temos produzido oficinas,
junto as crianças de uma escola de ensino fundamental, com o desejo de fomentar o a
reflexão crítica a respeito dos conteúdos que produzem em redes digitais, oferecendo
suporte para que os mesmos possam criar materiais acessíveis.
Nosso intento é que essas crianças possam ser sensibilizadas em relação aos
conteúdos que produzem nas redes, mas que na maioria das vezes inviabilizam o
entendimento de outras crianças com diferentes formas de habitar o mundo, seja por
questões sensoriais ou das cerebralidades diversas. Assim, uma nova questão nos
instiga a pensar: essas intervenções teriam potencial para fazer com que as crianças
reterritorializem os ambientes digitais das redes sociais a partir de modos inventivos
que produzam uma atitude mais inclusiva?
Mais do que respostas conclusivas para essas questões, este estudo busca
produzir potência, seja nas possibilidades de novos agenciamentos promovidos pelos
encontros nas oficinas, seja, despertando no alunado olhares e escutas sensíveis para
as questões da inclusão. Encontros que não subordinam as diferenças a uma
identidade fixa, mas que deem a ver a multiplicidade de possibilidades de nossas
existências em suas potências. Isto porque entendemos que nenhum corpo está
reduzido a um traço, uma característica que lhe coloca no lugar de déficit.
Diante do exposto encontramos na pesquisa cartográfica um percurso que se
por hódos-metá, onde as metas vão sendo traçadas ao longo do percurso.
Pesquisa-intervenção que permite um mergulho nas experiências cotidianas com os
diferentes sujeitos para uma compreensão mais ampla e plural sobre o tema (Passos,
Kastrup e Escóssia, 2009).
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Conforme exposto acima, tomamos como intervenção, oficinas de
sensibilização sobre inclusão e acessibilidade nas mídias digitais, utilizando redes
sociais. Temos utilizado filmes inacessíveis e acessíveis com audiodescrição e
aplicativos de avatares em Libras (Língua Brasileira de Sinais), editores de vídeo com
legenda, etc. promovendo experiências críticas, atencionais e sensoriais que desafiem
as crianças a experimentarem novas estéticas de acesso aos conteúdos de suas redes.
A intenção tem consistido em acompanhar esses processos cartografando possíveis
movimentos de mudanças de atitude em relação aos conteúdos daquilo que eles
produzem na web. Esses registros vêm sendo registrados e ratificados através dos
conteúdos produzidos nas redes dos participantes e das narrativas colhetadas em
rodas de conversas com as crianças.
que se destacar porque optamos pelo termo colheita ao invés de coleta. Na
pesquisa cartográfica os dados são produzidos ao longo da pesquisa-intervenção,
portanto, entendemos que nessas oficinas podemos estar cultivando uma relação mais
ética e uma atenção menos econômica e mais ecológica (Citton, 2018) sobre aquilo
que vemos, ouvimos e postamos em espaços/tempos da Cultura Digital. Resta-nos
saber se aquilo que cultivamos produzirá bons frutos.
Acessibilidade digital e a ética hacker
No atual contexto histórico, social e tecnológico, principalmente após o período
pós-pandêmico, tornou-se inquestionável a constatação de que as tecnologias digitais
de informação e comunicação impactam nosso cotidiano. tempos discutimos os
efeitos dessa mudança na sociedade e suas consequências para a educação. Porém a
Pandemia foi laboratório vivo no que tange a imensa utilização de dispositivos de
tecnologias digitais por parte de corpos docentes e discentes, como caminho para
ensinar e aprender diante do isolamento social/físico.
Após o período de isolamento social, provocado pela pandemia do vírus
SARS-Cov 19, quando retornamos ao ensino presencial, ficou impossível ignorar a
influência das tecnologias digitais como parte integrante da sociedade e,
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consequentemente da escola. Não se pode mais prescindir de assumir, em contextos
escolares, as transformações ao seu redor. As tecnologias digitais oferecem uma
variedade de possibilidades de uso e é essencial compreender e refletir criticamente
sobre essas mudanças para estabelecermos os critérios que possibilitam as formas de
uso dessas redes, de modo a potencializar processos de comunicação e
ensino-aprendizagem comprometidos com um conhecimento ético.
As novas gerações vivenciam o mundo a partir de percepções multimodais,
múltiplas linguagens que produzem novas formas de aprendizado. Imersas no mundo
de maneira ubíqua, manipulando e sendo manipuladas por várias informações de
forma instantânea, navegando pelo ciberespaço. Essa interação entre o local e o global
é profusa e quase instantânea, mesmo quando offline, decorrente de uma constante
conexão por meio de perfis online (Pretto e Bonilla, 2015, p. 24).
A inclusão social e educacional, facilitada pelas tecnologias, oferece
oportunidades de acesso a conteúdos de maneiras adaptadas para diferentes
necessidades. No entanto, essas ferramentas ainda são pouco conhecidas e utilizadas
devido à invisibilidade das pessoas com deficiência na sociedade. A falta de conteúdos
desenvolvidos de forma inclusiva na Web prejudica aqueles que têm ritmos cognitivos
diferentes e formas sensoriais específicas de percepção do mundo.
Identificamos nos princípios da Ética Hacker aspectos que contribuem para se
pensar uma escola mais includente, que sensibilize seus estudantes para uma mudança
de atitude em relação ao consumo e produção de conteúdo na web. Uma educação
voltada para o conhecimento aberto e acessível é uma questão de justiça social, mas
para isso, é preciso uma abordagem crítica e política, atenta à ampliação das
desigualdades sociais que as tecnologias podem gerar.
Assim, adotamos a Ética Hacker descrita por Himanen (2001) como ponto de
partida para compreender os desafios e as potencialidades da era da informação. Para
o autor do conceito, o termo hacker é empregado, no senso comum, de modo
equivocado, associando-o a programadores que praticam atividades criminosas, que
violam os sistemas de empresas e que aplicam golpes roubando números de cartões
de crédito ou contas bancárias. Himanem nos adverte que, na verdade, essas pessoas
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deveriam ser chamadas de crackers. Deste modo pode-se dizer que a característica
principal do hackerismo consiste na proposta de criar um espírito alternativo para a Era
da Informação, defendendo que o conhecimento é um dispositivo poderoso que pode
dirimir as exclusões, portanto, todos deveriam se apropriar desses meios de forma
crítica.
Himanen (2001) além de desmistificar o sentido pejorativo atribuído aos
hackers, nos mostra que a ética desse grupo pode ser aplicada em qualquer meio, não
ligado à tecnologia computacional, como costumam supor. A lógica do trabalho
hacker tem a ver com a paixão pelo que faz e compreender o seu trabalho, para além
da lógica capitalista, entendendo a sua importância coletiva, nessa perspectiva a Ética
Hacker inverte o primado capitalista “tempo é dinheiro” e propõe relações temporais e
atencionais, mais ecológicas.
Pretto, por sua vez, se baseia na ética descrita por Himanen, reconhecendo
seus princípios como elementos valiosos para compreender e potencializar os novos
processos de ensino e aprendizagens, criando o conceito de Educações Hacker (Pretto,
2017). Segundo ele, esta é uma questão de justiça social, ou seja; tornar esses
ambientes acessíveis a todos, eliminando barreiras sociais e físicas (Pretto, 2017).
Com a filosofia hacker, outra cultura se estabelece ao enfatizarmos a paixão,
o trabalho solidário e colaborativo como elementos socialmente necessários
para a construção de um mundo sustentável. Entretenimento, trabalho,
cultura, educação, ciência, tecnologia, todos os campos podem e deveriam
estar imersos nessa cultura, onde o prazer em construir seja o mote
realizador das ações (Pretto, 2017, p.39).
No mundo em que vivemos, a partir da lógica do capital que incentiva o
individualismo e a desigualdade, construir práticas colaborativas, coletivas,
descentralizadas e não hierarquizadas é uma tarefa desafiadora, mas a internet, se
utilizada para além do entretenimento e e-commerce, com um viés mais politizado,
pode ser um meio potencializador dessa construção coletiva.
Essa outra postura é o que denominamos um jeito hacker de ser, centrado
numa forte ética de compartilhamento, uma ética hacker que propicia, ao
fortalecer as redes de nós fortalecidos, que professores-autores em rede
exerçam plenamente sua cidadania. Professores fortalecidos fazendo a
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diferença. Começamos, assim, a pensar a educação numa perspectiva plural,
acontecendo a partir das realidades locais, fortalecidas pelas interações
nacionais e planetárias (idem, p. 59).
Dessa forma, este estudo busca trazer uma reflexão multidisciplinar da inclusão
em uma sociedade permeada pelo digital, conectada em rede, em que os jovens não
consomem seus conteúdos como também se tornaram produtores, logo, é preciso
investir no alunados logos nos primeiros anos escolares para que possam crescer
dentro de uma perspectiva de inclusão e acessibilidade digital.
As pessoas não estão acostumadas a atuar de forma colaborativa, e ainda
impera a lógica da hierarquia vertical, com delegação plena de poderes a
representantes especial atenção nossa os sistemas de produção colaborativa
que hoje ocupam grande espaço no movimento do software livre mundial,
denominados wikis, que possibilitam a publicação de páginas na web,
estando sua edição aberta para todos os usuários. Os termos wiki e wikiwiki,
que em havaiano significa rápido e rapidinho, foram adotados nesse tipo de
software e ferramenta exatamente porque possibilitam que, onde quer que
esteja, o usuário possa editar o conteúdo da página que está lendo e, com
isso, acrescentar a sua contribuição à mesma. Uma das maiores experiências
no wiki é a Wikipédia, criada em 2001 na Flórida (Estados Unidos) e que hoje
já está traduzida para cerca de 80 idiomas (Pretto, 2017, p. 41).
Defendemos que a inclusão social na era digital é essencial para garantir que as
tecnologias eliminem barreiras em vez de criar novos entraves. A educação deve se
adaptar às diferentes realidades dos alunos, promovendo práticas inclusivas,
respeitando as diferentes formas de aprendizado.
A pesquisa como uma política e uma epistemologia que promova acessibilidade sob
a perspectiva da ética hacker
Numa perspectiva da pesquisa-intervenção temos refletido, junto as/aos
estudantes da escola fundamental do primeiro ciclo, sobre as questões de
acessibilidade em redes sociais digitais, no intuito de sensibilizá-los para práticas mais
acessíveis e responsáveis sobre aquilo que postam. Porém, para este artigo optamos
por expor as discussões teóricas que nos fundamentam para propor práticas escolares
que promovam processos de aprendizagem mais adequados às diversas realidades
contemporâneas, a fim de promover processos mais inclusivos para todos e todas.
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Para falar de uma escola inclusiva e democrática se faz necessário discutir sobre
as formas de acesso à informação e ao conhecimento. É certo que as tecnologias
tornaram o conhecimento mais acessível às pessoas com impedimentos sensoriais.
Aplicativos e programas de software facilitam a comunicação e o acesso às
informações, quebrando impedimentos até então inimagináveis para a aprendizagem,
diminuindo barreiras comunicacionais. Todavia, estes recursos ainda são pouco
conhecidos e pouco utilizados, a maior parte do conteúdo publicado na Web não é
pensado e desenvolvido de forma inclusiva, o que pode acentuar ainda mais as
desigualdades.
Cabe ressaltar que muitas plataformas como Instagram, Facebook entre outras,
oferecem algumas ferramentas para acessibilidade. Então por que muitos
influenciadores e criadores de conteúdo digital não utilizam? A escola tem um papel
fundamental para uma mudança de postura quanto a acessibilidade, pois ela é uma
das máquinas de produção de subjetividade (Ferreira, 2016), logo, para a inclusão se
tornar algo mais concreto no âmbito da sociedade, é preciso um forte investimento
numa cultura, numa prática de acessibilidade.
É importante que as pessoas percebam a importância de uma postura reflexiva
sobre as formas do conteúdo que se consome e que se produz nas redes, para que
sejam multiplicadores de uma comunicação mais acessível, criando meios de
compartilhamento de conteúdos, de acesso aos conhecimentos e artefatos culturais
produzidos pelas tecnologias contemporâneas, garantindo o direito de acesso a todos
e todas nas mídias digitais.
O conceito de acessibilidade surge a partir de questões físicas relativas às
barreiras arquitetônicas e à reabilitação física e profissional, que ganham destaque a
partir da década de 1980. Período em que surge o conceito de Design Universal
criando a concepção de um design adapvel às diversas necessidades da população,
inicialmente relacionado à arquitetura. Na década de 1990, com a popularização da
Internet e de comunidades virtuais nos EUA, percebe-se a necessidade de prover esse
mesmo acesso universal na Web com a construção de ambientes virtuais acessíveis.
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Dessa forma, a Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) destina um
capítulo à garantia de acesso à informação e comunicação das pessoas com deficiência,
elementos essenciais à cidadania. Neste contexto, torna obrigatória a acessibilidade
nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no
País ou por órgãos de governo, para uso da pessoa com deficiência” (art. 63),
fundamental para garantir autonomia nas atividades do dia-a-dia, sendo dever do
poder público criar mecanismos de incentivos ao desenvolvimento acessível desses
espaços e conteúdos, garantindo:
A possibilidade e a condição de alcance, percepção, entendimento e
interação para a utilização, a participação e a contribuição, em igualdade de
oportunidades, com segurança e autonomia, em sítios e serviços disponíveis
na web, por qualquer indivíduo, independentemente de sua capacidade
motora, visual, auditiva, intelectual, cultural ou social, a qualquer momento,
em qualquer local e em qualquer ambiente físico ou computacional e a
partir de qualquer dispositivo de acesso (W3C Brasil, Cartilha Acessibilidade
na Web)4.
Evidenciamos que pensar acessibilidade digital não é pensar apenas nas
pessoas com deficiência, mas em todas as pessoas que enfrentam alguma dificuldade
em acessar qualquer conteúdo na Web, incluindo assim os idosos, analfabetos
funcionais, pessoas que passaram por algum acidente ou trauma, usuários com alguma
dificuldade de mobilidade, mães com recém nascidos que precisam de silêncio, entre
outros. São diversos grupos que necessitam ou se beneficiam dessas ferramentas,
possibilitando assim a democratização da Web, pensando para além do acesso, mas
nas formas de uso.
Nesse sentido, as tecnologias digitais se tornam pontos centrais da discussão.
Precisamos pensar nos princípios da acessibilidade no ciberespaço e no livre acesso ao
conhecimento em espaços coletivos e colaborativos, que permitem o
compartilhamento de aprendizados e experiências. Compreender o contexto histórico
tecnológico que vivemos e as mudanças de formas de viver em sociedade, as
linguagens contemporâneas, os modos de ensinar e de aprender dessas gerações que
lidam com esses multiprocessamentos (Canevacci, apud Dourado, 2023), não basta. É
4 Disponível em: https://w3c.br/web-para-todos/cartilhas-de-acessibilidade-na-web/ . Acesso em: 9 dez
de 2024.
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preciso saber o que fazer com esse conhecimento para que possamos ter uma
sociedade mais justa, respeitando a equidade como direito a igualdade.
Considerações finais
Mesmo quando navegamos descompromissadamente pelas redes sociais,
estamos exercendo nosso direito de cidadania, interagindo com o mundo em torno de
links que nos conduzem as produções sociais e culturais de conteúdos. Mas será que
temos pensado se esse direito vem sendo garantido a todos e todas? Até que ponto
somente uma parte privilegiada da civilização pode usufruir desses direitos? Temos
avançado na reparação de direitos ou repetido as mesmas práticas excludentes com a
sofisticação tecnológica?
Analisando de que forma se dava o uso das tecnologias com foco na televisão e
no vídeo, Pretto (1996) afirmava ser necessário pensá-las numa perspectiva aberta,
de acesso a todos e todas. Precisamos pensar nas tecnologias digitais e na internet
enquanto espaço social que requer problematizações sobre os efeitos que esses meios
produzem sobre as pessoas.
A nosso ver a internet e o conjunto de tecnologias digitais são muito mais do
que meios eficazes de comunicação, pois produzem processos de subjetivação.
Precisamos problematizar seus modos de apropriação pela sociedade e fenômenos
como a infodemia e as fakenews são grandes exemplos dessa necessidade.
A filosofia hacker, com base nos estudos de Himanen e Pretto, oferece uma
visão inspiradora para uma educação baseada na colaboração, no compartilhamento e
na paixão pelo aprendizado. Essa abordagem nos convida a pensar na construção de
uma escola inclusiva e democrática que vai além do simples acesso à tecnologia e ao
conhecimento. Ela se baseia na ideia de que a educação plural, autoral, criativa e
centrada nas realidades locais, fortalecida pelas interações nacionais e globais, que se
opõe a lógica da sociedade capitalista e individualista. Desta maneira, as oficinas de
sensibilização que vem sendo desenvolvidas com os/as estudantes, buscam,
primordialmente, promover espaços/tempos sensíveis à inclusão na escola.
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Destacamos a importância de não apenas garantir o acesso digital, mas
também um comprometimento para que esses espaços sejam acessíveis a todos, como
uma questão de justiça social, possibilitando o uso crítico e inventivo das tecnologias
digitais. Ao envolver estudantes do Ensino Fundamental em atividades que os
incentivam a refletir sobre a forma que os conteúdos que consomem e produzem são
publicados na Web, buscamos despertar mudanças de atitude em relação a esses
conteúdos.
Assim, pensamos na democratização do acesso à informação e a construção de
uma “inteligência coletiva” (Lévy, 1999), por meio de um “jeito hacker de ser” (Pretto,
2017), que tem como princípio fundamental o conhecimento aberto, livre e acessível
desenvolvido de forma colaborativa. Pensamos na construção de outras educações,
plurais, autorais, criativas, com crianças e jovens que façam da escola um espaço vivo
de produção de culturas e conhecimentos.
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