Tráfico de testosterona e o vício na performance: a produção da masculinidade a partir do uso ilegal de hormônios bioidênticos
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i2.a66717Palabras clave:
Testosterona, Masculinidade, Qualidade de vida, Medicalização.Resumen
Este artigo apresenta as primeiras reflexões de uma pesquisa iniciada em dezembro de 2023. O objetivo é compreender os discursos e justificativas em torno dos usos de testosterona bioidêntica entre homens que compartilham suas experiências com essa substância em grupos de WhatsApp. Apesar de o senso comum entender que a busca por tal hormônio e de seus derivados seja apenas pela finalidade estética, os usuários, geralmente atletas amadores de diferentes modalidades, recorrem aos ergogênicos no intuito de melhorar a performance esportiva e sexual, tornar-se mais produtivo no dia a dia e como uma espécie de antidepressivo. Além disso, há, recorrentemente, homens entre 30 e 40 anos de idade que se valem desses grupos no intuito de fazer Terapia de Reposição de Testosterona. Diante deste cenário, o texto analisará a construção da masculinidade a partir do consumo de testosterona sem prescrição médica, mapeando os discursos em torno desta prática em fóruns nas Redes Sociais, por meio de uma etnografia digital. A investigação busca entender como os sujeitos produzem sentido e significações sobre si a partir da quantificação da subjetividade e administração bioquímica do corpo, uma vez que suas elaborações enquanto sujeitos são atravessadas pelos níveis de testosterona total no corpo, a contagem de macronutrientes de suas dietas. Os primeiros investimentos nesse universo demonstram que os usuários de hormônios se tornam dependentes dos efeitos físicos e psicológicos que a testosterona propicia, enquanto uma droga de qualidade de vida, pois ela produz uma espécie de hipermasculinidade.
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