Enredos, religiosidade e construções simbólicas no carnaval carioca de 2024
DOI :
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i2.a67176Mots-clés :
Carnaval, Escolas de samba, Religiões afro-brasileiras, Enredo, Narrativas.Résumé
Este artigo analisa como o campo religioso opera na construção de narrativas sobre sucesso e fracasso nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. A partir de uma pesquisa etnográfica realizada durante o ciclo carnavalesco de 2024, examinam-se dois casos emblemáticos: a homenagem da Mangueira à cantora Alcione e o enredo da Unidos do Viradouro sobre o vodum Dangbé. Utilizando o conceito de “enredo” formulado por Clara Flaksman para compreender sistemas de relações no candomblé, demonstramos como as religiões afro-brasileiras constituem uma dimensão estruturante do carnaval contemporâneo. A pesquisa revela que, enquanto a Mangueira enfrentou conflitos internos relacionados à gestão do sagrado em seu enredo biográfico, resultando em narrativas de fracasso associadas à invisibilidade de cuidados religiosos, a Viradouro estabeleceu uma relação formal e explícita com o campo religioso, incorporando elementos sagrados tanto em seu enredo quanto em sua comunicação pública. Esta diferença de abordagem refletiu-se nas interpretações sobre eventos ocorridos durante os desfiles: na Mangueira, a quebra de uma alegoria foi vista como consequência da falta de cuidado religioso; na Viradouro, a inversão não planejada da ordem das alegorias no desfile das campeãs foi interpretada como manifestação do próprio vodum homenageado. A análise evidencia como, independentemente da temática escolhida, o campo religioso permanece como elemento essencial na estrutura do carnaval, capaz de influenciar narrativas e moldar interpretações sobre o resultado dos desfiles, revelando a persistência e centralidade da religiosidade afro-brasileira na produção do espetáculo carnavalesco.
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