Além do colapso moral: uma análise antropológica das narrativas de mulheres estadunidenses portadoras de mutação no gene BRCA1
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i2.a66512Palavras-chave:
Colapso moral, Risco, Ontologia digital, Lógica da escolha, Câncer.Resumo
A presença de mutação no gene BRCA1 nas mulheres implica a tomada de consciência sobre as possibilidades aumentadas de acometimento por câncer de mama e ovário. Dado o remodelamento do horizonte de expectativa decorrente da realização da testagem genética, o presente artigo utiliza os relatos da atriz Angelina Jolie e da pesquisadora Elisa Long sobre a descoberta da mutação no gene BRCA1 para analisar as condições macroestruturais de possibilidade que ajudam a explicar a posição de pessoa moral a partir da qual ambas compreendem o colapso moral que vivenciam. A noção de tríplice mimesis foi utilizada como inspiração metodológica pois, tanto permite restituir as narrativas construídas por Jolie e Long às matrizes sociais que se inscrevem como precondição para a escrita de tais relatos, quanto possibilita acionar a dimensão da recepção desses conteúdos como instância tensionadora das próprias matrizes sociais acionadas textualmente pela atriz e pela pesquisadora. A ênfase desses relatos na retórica das decisões informadas em saúde ajuda a pensar nas implicações das práticas contemporâneas de saúde nos Estados Unidos através de uma lógica do consumo. A ontologia corporal introduzida pela genética coloca em primeiro plano uma noção especulativa de saúde que precisa ser manejada pelos sujeitos no cotidiano. Ademais, observa-se que os riscos vinculados à ontologia genética, longe de serem parâmetros universais, são contextualmente produzidos e embutem certas noções de feminilidade, classe e modelo de saúde que os dotam de performatividade social.
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