Sobre ‘patronagem’ entre as/os Xukuru-Kariri em Taquarana (agreste, Alagoas)
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i2.a67951Palavras-chave:
Dominação., Patronagem, PoderResumo
O presente artigo consiste na reelaboração de um ensaio escrito em 2016, tendo como objetivo apresentar uma reflexão sobre o ‘fenômeno’ da patronagem, entre indígenas e não indígenas, que habitam a região agreste do estado de Alagoas, Nordeste brasileiro. Corresponde a uma reinterpretação de dados, produzidos nos anos de 2014 e 2015, mediante conversas gravadas ou anotadas, e observações, realizadas em campo. O trabalho enfatiza, contudo, novas questões, guardando estreita relação com trabalho anterior. A continuidade aparece já no primeiro item, que ‘revisita’ as/os Xukuru-Kariri em Taquarana, famílias indígenas habitantes desse pequeno município alagoano. O segundo item discute o projeto “Emprego e mudança socioeconômica no Nordeste”, realizado por um conjunto de pesquisadores/as, desde o Programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Associando-se a isso, percorreremos delineamentos teóricos, que visam provocar e contribuir ao estudo da patronagem no Brasil. Finalmente, no terceiro e último item, uma figuração estabelecido-outsider é observada, interacionalmente, desde uma particular região e uma específica relação de assimetria entre pessoas: uma indígena e um fazendeiro. Conclui-se os desafios de se pensar em termos de uma hegemonia ideológica a qual seria compartilhada tanto por dominadores quanto por dominados, não obstante as desigualdades de poder.
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