Geisel, o documento da CIA e a disputa pública pela memória da ditadura: notas sobre o ofício do historiador
Palavras-chave:
Ditadura Empresarial-Militar, Geisel, CIAResumo
Este artigo examina a circulação, em 2018, de um relatório da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), desclassificado em 2015, que relata uma reunião na qual Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo concordaram com a continuidade da política de execução de presos políticos. A hipótese central sustenta que, na era da superinformação, a amplificação de determinadas práticas historiográficas, como a relativização do rigor e a desinstitucionalização do ofício do historiador, favorece a equiparação entre interpretações concorrentes e fomenta leituras equivocadas e conspiratórias. Para fundamentar essa análise, investiga-se a recepção de Elio Gaspari ao documento, demonstrando que sua interpretação tende a reproduzir a narrativa dos próprios agentes da ditadura e a minimizar o potencial crítico de novas evidências. Por fim, argumenta-se pela necessidade de problematização metodológica das fontes, contextualização comparativa e, sobretudo, da abertura de arquivos ainda restritos, a fim de qualificar o debate público e reorientar interpretações.